Como a Radioterapia Afeta o Funcionamento do Cérebro?
Postado em: 19/06/2025
A Radioterapia é uma ferramenta importante no tratamento de tumores cerebrais e metástases no sistema nervoso central.

Embora eficaz no controle da doença, é preciso saber que, em alguns casos, esse tipo de tratamento pode afetar temporária ou permanentemente o funcionamento cerebral.
Vamos explicar a seguir como a radioterapia pode influenciar funções cognitivas, mecanismos envolvidos, os avanços que minimizam esses efeitos e as estratégias de cuidado baseadas em evidências científicas recentes. Convido você a continuar a leitura para mais informações.
Possível impacto da radioterapia em funções cognitivas
A exposição do cérebro à radiação pode levar a alterações cognitivas, como dificuldades de memória, atenção, velocidade de processamento e linguagem.
Os efeitos colaterais da radioterapia ou radiocirurgia sobre o sistema nervoso central variam significativamente conforme o volume irradiado, a dose total administrada e a localização anatômica da lesão tratada.
A radioterapia convencional geralmente envolve frações menores de dose por sessão, enquanto a radiocirurgia utiliza doses únicas elevadas, o que pode implicar em perfis distintos de toxicidade.
Áreas críticas como o tronco encefálico, tálamo, gânglios da base ou córtex motor e eloquentemente funcional apresentam maior risco de efeitos neurológicos, mesmo com doses menores.
Quando o volume irradiado é extenso, os pacientes podem apresentar sintomas inespecíficos, como cefaleia, fadiga, sonolência e, em alguns casos, síndrome de encefalopatia por radiação (com rebaixamento do nível de consciência e alterações cognitivas transitórias ou persistentes).
Já em volumes pequenos, mas com altas doses por fração, como na radiocirurgia, há risco aumentado de necrose cerebral tardia — um efeito colateral grave, que pode simular progressão tumoral em exames de imagem e causar déficits neurológicos focais, edema cerebral ou crises convulsivas.
A localização da área tratada também influencia diretamente o tipo de alteração neurológica. Irradiação próxima ao nervo óptico pode resultar em neurite óptica ou perda visual, enquanto lesões em regiões motoras podem causar hemiparesias ou distúrbios da marcha.
Alterações cognitivas, déficits de memória e distúrbios comportamentais são mais comuns quando há envolvimento do hipocampo, lobo temporal ou estruturas límbicas. Portanto, a individualização do plano terapêutico e o uso de técnicas de alta precisão são fundamentais para minimizar riscos ao sistema nervoso.
A gravidade e a duração desses efeitos variam conforme a dose de radiação, a área tratada e fatores individuais, como idade e saúde geral. Em alguns casos, as alterações cognitivas são transitórias e melhoram com o tempo; em outros, podem persistir por anos.
Mecanismos fisiopatológicos envolvidos
A fisiopatologia das lesões neurológicas induzidas por radioterapia envolve múltiplos mecanismos interligados.
Inicialmente, a radiação gera estresse oxidativo e danos ao DNA de células neuronais, gliais e endoteliais, levando à ativação de vias inflamatórias e morte celular.
Esse processo provoca disfunção da barreira hematoencefálica, edema e infiltração de células inflamatórias, além de reduzir a neurogênese, principalmente no hipocampo.
Em fases mais tardias, ocorre fibrose, desmielinização e necrose tecidual, com prejuízos permanentes à estrutura e à função cerebral.
O hipocampo, estrutura essencial para a memória e o aprendizado, é especialmente vulnerável à radiação devido à sua elevada plasticidade sináptica e atividade proliferativa nas células progenitoras da região do giro denteado.
Estudos demonstraram que mesmo doses moderadas ao hipocampo podem comprometer a memória verbal e a função cognitiva global.
Por isso, surgiu a técnica de preservação do hipocampo (hippocampal-sparing) na radioterapia de cérebro total (WBRT – whole-brain radiotherapy), atualmente considerada o padrão-ouro em pacientes com metástases cerebrais múltiplas que não envolvem diretamente essa estrutura.
Além da técnica de proteção do hipocampo, a administração de memantina, um antagonista do receptor NMDA, tem se mostrado eficaz na preservação cognitiva durante a radioterapia de cérebro total. O racional é reduzir a excitotoxicidade induzida pela liberação excessiva de glutamato, comum após dano radiogênico, protegendo os neurônios remanescentes.
Ensaios clínicos como o RTOG 0614 demonstraram que o uso de memantina em combinação com técnicas de radioterapia conformacional com preservação hipocampal reduz significativamente o risco de declínio cognitivo em comparação à WBRT convencional.
Avanços tecnológicos para preservação cognitiva
Para minimizar os efeitos cognitivos da radioterapia, novas técnicas têm sido desenvolvidas.
A radioterapia com preservação do hipocampo, por exemplo, evita a exposição dessa região sensível, reduzindo o risco de comprometimento da memória. Essa abordagem, combinada com o uso do medicamento memantina, preserva melhor a função cognitiva em comparação com a radioterapia tradicional .
Outra inovação é a radiocirurgia estereotáxica (SRS), que direciona altas doses de radiação a áreas específicas do cérebro, poupando tecidos saudáveis. Pacientes tratados com SRS apresentaram menos declínio cognitivo do que aqueles submetidos à WBRT.
Estratégias de cuidado e reabilitação
O manejo das alterações cognitivas envolve uma abordagem multidisciplinar. Neuropsicólogos podem realizar avaliações e desenvolver programas de reabilitação cognitiva personalizados.
Esses programas incluem exercícios para melhorar a memória, atenção e outras funções afetadas.
Além disso, a prática de atividades físicas regulares, uma alimentação equilibrada e o controle de fatores como estresse e distúrbios do sono podem contribuir para a recuperação cognitiva.
Em alguns casos, o uso de medicamentos como a memantina pode ser indicado para proteger ou melhorar a função cerebral durante e após a radioterapia.
Compreender os mecanismos envolvidos na radioterapia e adotar estratégias para minimizar esses efeitos são passos que permitem preservar a qualidade de vida dos pacientes. Avanços tecnológicos e abordagens multidisciplinares têm mostrado eficácia na redução dos impactos cognitivos, oferecendo mais esperança e melhores perspectivas.
Se você recebeu indicação para o tratamento radioterápico, entre em contato e agende uma consulta! Vamos juntos entender a melhor forma de tratar seu caso de câncer e proteger sua saúde.
Dra. Maria Thereza Starling
Rádio-Oncologista
CRM SP-186315 | RQE 99118
Dra. Maria Thereza Starling
CRM: 186315/SP
RQE: 99118 – Radioterapia